Verso 12:1: A Chamada de Avram – Lech Lecha
- HaShem (O Nome, o Criador que transcende e preenche) revela-Se a Avram em Ur Casdim: “Lech Lecha” – “Vai-te a ti mesmo”, uma exortação para que Avram abandone as raízes materiais e avance rumo à sua essência espiritual, saindo da terra, parentela e casa paterna para a Terra que lhe será mostrada.
- A promessa de bênçãos – nação grande, nome engrandecido, bênção universal – ecoa o Chesed (Bondade) divino, contrastando com o Din (Julgamento) da geração de Noach.
- Contexto Cabalístico: “Lech Lecha” é um chamado à elevação das almas, da contração (Tzimtzum) do mundo material para a expansão da luz divina. Avram, como raiz de todas as almas judaicas, inicia o processo de retificação (Tikkun) da criação, transformando o egoísmo da Torre de Babel em conexão universal. A “Terra” simboliza Malchut (Reino), o canal para as Sefirot superiores, onde Avram se torna o canal de Yesod (Fundamento), unindo Céu e Terra.
Verso 12:2-9: A Jornada para Canaã e os Altares
- Avram, aos 75 anos, parte com Sarai e Lot, levando bens e “almas que adquiriram” em Harã – prosélitos convertidos à fé monoteísta.
- Chegando a Canaã, passa por Shechem e Bet-El, erigindo altares ao Eterno, invocando o Nome, e viaja ao Neguev.
- Contexto Cabalístico: Os altares representam a elevação das faíscas divinas (Nitzotzot) presas na materialidade de Canaã, povoada pelos Cananeus (símbolo de impurezas klipot – cascas espirituais). Cada altar é um portal para a Sefirá de Netzach (Vitória Eterna), ancorando a presença da Shechinah (Presença Divina) na terra. A jornada de Avram espelha o fluxo das Sefirot, do alto (Shechem, associado a Binah – Entendimento) ao baixo (Bet-El, ligado a Tiferet – Beleza).
Verso 12:10-20: A Descida ao Egito e a Prova de Sarai
- Fome leva Avram ao Egito; temendo pela vida, pede que Sarai se passe por irmã. Ela é tomada pelo Faraó, mas pragas atingem a casa real, revelando a intervenção divina.
- Avram sai enriquecido, mas com lições de fé testada.
- Contexto Cabalístico: O Egito (Mitzrayim) simboliza as estreituras do Yetzer HaRa (inclinação ao mal), um exílio espiritual onde as almas são aprisionadas nas klipot. Sarai, como aspecto de Binah (Mãe Superior), representa a pureza da alma que atrai proteção; as pragas são manifestações de Gevurah (Severidade) mitigada por Chesed, purificando o Faraó. Este episódio inicia o padrão de “descidas para ascensões” (Yeridah L’tzorech Aliyah), essencial para o Tikkun de Avram.
Verso 13:1-18: Separação de Lot e a Visão da Terra
- Riquezas causam discórdia entre pastores; Avram, em Chesed, oferece escolha a Lot, que opta pela planície do Jordão, perto de Sodoma.
- HaShem renova a promessa: a terra a Avram e descendência como pó da terra; ele se assenta em Hevron, Mamre, erigindo altar.
- Contexto Cabalístico: A separação simboliza o discernimento entre caminhos: Lot (ligado a Sodom, klipot de egoísmo) vs. Avram (canal de Chesed). A visão da terra de quatro direções evoca as quatro mundos cabalísticos (Atzilut, Beriah, Yetzirah, Asiyah), prometendo que a descendência de Avram (as 70 faces da Torá) multiplicará como o pó – símbolo de Malchut elevada. Hevron, com as quatro pares de túmulos patriarcais, representa o equilíbrio das Sefirot pares.
Verso 14:1-24: A Guerra dos Reis e o Encontro com Malki-Tzedek
- Quatro reis (liderados por Kedorlaomer) vencem cinco reis no Vale de Sidim; capturam Lot. Avram, com 318 servos, resgata-o.
- Malki-Tzedek (rei-sacerdote de Shalem) abençoa Avram com pão e vinho; Avram dá dízimo e recusa bens de Sodoma.
- Contexto Cabalístico: A guerra reflete o conflito cósmico entre forças de Chesed (cinco reis, Sefirot de misericórdia) e Din (quatro reis, severidades). Os 318 servos de Avram somam em Gematria “Eliezer” (seu servo), mas cabalisticamente, 318 = 18 (Vida, Chai) x 17 (Tov, Bom), simbolizando vitória da luz sobre trevas. Malki-Tzedek, alma de Shem, representa Tiferet (harmonia); o pão e vinho elevam as faíscas de Yesod e Malchut, prefigurando o futuro altar eterno.
Verso 15:1-21: A Aliança entre as Partes – Brit Bein HaBetarim
- Em visão, HaShem consola Avram: sua descendência será como estrelas. Avram crê, e é creditado como tzedaká (justiça).
- Ritual: animais cortados ao meio; sono profundo com terror revela exílio de 400 anos. Forno e tocha passam entre partes, selando a aliança da terra.
- Contexto Cabalístico: A fé de Avram ativa a Sefirá de Keter (Coroa), transcendendo dúvida; o sono (tardemah) é um estado profético de unificação com o Ein Sof (Infinito). Os animais cortados simbolizam a retificação das klipot (metade impura separada); 400 anos = 400 x 40 (Mem, purificação), aludindo ao exílio egípcio como gestação espiritual. O forno (tannur) é Gevurah flamejante, a tocha Chesed luminoso – união de opostos na Brit (Aliança), ancorando a terra em Netzach e Hod.
Verso 16:1-16: Hagar, o Nascimento de Yishmael e a Visão no Deserto
- Sarai, estéril, dá Hagar a Avram; Hagar concebe Yishmael, mas despreza Sarai, que a malmata. Hagar foge; anjo a instrui a retornar, prometendo descendência numerosa.
- Hagar nomeia HaShem “El Ro’i” (Deus que vê); nasce Yishmael aos 86 anos de Avram.
- Contexto Cabalístico: Hagar, egípcia, representa Malchut impura elevada; sua gravidez simboliza o nascimento de Yishmael como canal de Kedushah (santidade) mista, raiz das nações islâmicas. O anjo (malach, mensageiro de Binah) revela o “homem selvagem” (pere adam) – Yishmael como força de Netzach desequilibrado, mão contra todos, mas habitando entre irmãos (potencial de Tikkun). “El Ro’i” evoca a Sefirá de Chochmah (Sabedoria visionária), transformando aflição em visão da Shechinah no deserto (Midbar, palavra para liderança).
Verso 17:1-27: A Aliança Eterna na Carne – Brit Milah e Mudança de Nomes
- Aos 99 anos, HaShem revela-Se como El Shaddai (Deus Todo-Poderoso); muda Abrão para Avraham (pai de multidões), Sarai para Sarah (princesa, canal de bênçãos).
- Promete Isaac e aliança eterna; ordena circuncisão como sinal na carne do prepúcio, aos 8 dias, para todos os homens da casa.
- Avraham circuncida-se e toda a casa, incluindo Yishmael aos 13.
- Contexto Cabalístico: El Shaddai é Yesod (Fundamento), canalizando fluxo vital; a mudança de nomes retifica as letras – Avraham ganha Hei (de HaShem, Chesed feminino), Sarah recebe Yud (de YHVH, Binah). A Brit Milah remove o orlah (prepúcio, klipá bloqueadora), unindo Yesod e Malchut, permitindo o fluxo de or (luz) da Árvore da Vida. 8 dias = 8ª Sefirá (Hod, glória eterna); circuncisão aos 13 (Yishmael) evoca Gematria de Echad (Um), unificando o particular ao universal. Isaac, de Sarah, canalizará a Chesed pura, enquanto Yishmael recebe bênçãos em Netzach guerreiro, preparando o Tikkun final da humanidade.
