Os Bnei Anussim: Uma História de Fé, Perseguição e Redescoberta

Em nossa primeira publicação, mergulharemos no tema que toca o coração de milhões de nós, brasileiros: as raízes judaicas escondidas em nossas histórias familiares. Hoje, falamos sobre os Bnei Anussim, os “filhos dos forçados”, descendentes dos judeus sefarditas que foram obrigados a converterem-se ao cristianismo durante a Inquisição. Essa é uma jornada de resiliência e perseverança, onde a fé sobreviveu em segredo por gerações até nossos dias. Exploraremos quem eles são, a tragédia da Inquisição Católica Romana e como tais linhagens chegam até a nós no Brasil – e em muitas outras comunidades judaicas ao redor do mundo.

Quem São os Bnei Anussim?

Os Bnei Anussim são os descendentes contemporâneos de judeus da Península Ibérica – Portugal e Espanha – que, no final do século XV (1401-1500), foram coagidos a abandonarem a fé judaica para escaparem da morte na fogueira ou da expulsão dos territórios cristãos reconquistados dos árabes. O termo “Anussim” vem do hebraico e significa “os forçados”, enquanto “Bnei” quer dizer “filhos de”. Estima-se que cerca de 250 mil judeus converteram-se à força na Espanha e em Portugal, tornando-se “cristãos-novos” ou “marranos” (um termo pejorativo usado pelos inquisidores para designá-los como “porcos”). Muitos praticaram o judaísmo em segredo, como “cripto-judeus”, acendendo velas escondidas ou evitando certos alimentos, transmitindo tradições oralmente por séculos. Hoje, seus descendentes – espalhados pela América Latina, Europa e até Israel – estão redescobrindo suas origens através de testes de DNA, genealogia e estudos históricos de suas tradições familiares que remontam às origens judaicas.

A História Terrível da Inquisição Católica na Península Ibérica

A Inquisição Espanhola, instituída em 1478 pelos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, foi um dos capítulos mais sombrios e sangrentos da história humana e judaica sefardita. Seu objetivo era purificar o solo europeu das heresias praticadas por diversos grupos étnicos, dentre os quais, os judeus, pela defesa da fé católica; mas na prática, visava confiscar bens e eliminar minorias que detinham posições políticas e econômicas vantajosas diante das monarquias absolutistas dos Estados Modernos, nascidos já em dívidas com grandes banqueiros internacionais, tradicionalmente, judeus, desde a Idade Média (obrigados a trabalharem no ramo financeiro pela própria Igreja, que proibia aos cristãos a prática da “usura”). Judeus e muçulmanos foram os alvos principais: em 1492, o Édito de Expulsão forçou dezenas de milhares a fugir da Espanha ou converter-se ao cristianismo. Quem optou pela conversão, enfrentou a “Inquisição”, um tribunal eclesiástico que usava tortura, falsas confissões e execuções públicas na fogueira (os famosos autos de fé).

Na vizinha da Espanha, Portugal, a situação foi ainda mais cruel: em 1497, o rei Dom Manuel I ordenou conversões em massa, batizando crianças judias à força e separando-as de suas famílias. Muitos “cristãos-novos” fugiram para as colônias portuguesas, incluindo o Brasil, mas a Inquisição os perseguiu até o Novo Mundo. No Brasil Colônia (1500-1822), a partir de 1591, o Tribunal do Santo Ofício Inquisitorial instalou-se em locais como Lisboa e Goa, processando milhares pelo crime de serem “judaizantes”. Histórias de famílias inteiras torturadas, propriedades confiscadas e execuções – como a de Isabel Fernandes, uma “cripto-judia” queimada viva no Rio de Janeiro em 1624 – ilustram o terror. Essa perseguição durou séculos, moldando o silêncio sobre as raízes judaicas em nossa sociedade hodierna.

Os Bnei Anussim no Brasil: Sobrenomes que Contam Histórias

O Brasil recebeu ondas de Bnei Anussim desde o século XVI (1501-1600), quando cristãos-novos fugiram para as plantações de açúcar no Nordeste, para Rio de Janeiro e São Paulo, além do ciclo da mineração em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Muitos se infiltraram na sociedade colonial, mas mantiveram traços judaicos em costumes como acender velas no pôr do sol de sexta-feira ou evitar comer carne de porco. Hoje, testes de DNA revelam que até 20% da população brasileira tem ancestralidade sefardita, especialmente quem tem origens familiares no Nordeste, mas o fenômeno também é observado de Norte a Sul e de Leste a Oeste no território brasileiro.

Aqui vai uma lista extensa de sobrenomes brasileiros comuns com herança Anussim ou sefardita, baseados em registros inquisitoriais, genealogias e estudos históricos. Esses nomes frequentemente derivam de profissões, locais ou traços bíblicos, adaptados para a língua portuguesa:

SobrenomeOrigem PossívelNotas
AlmeidaDo castelo de Almeida (Portugal)Comum entre cristãos-novos no Brasil colonial.
AmaralDe “amaral” (amargo), ou local em PortugalLigado a famílias sefarditas expulsas em 1492.
BarbosaDe “barba” (barba), traço físicoFrequente em processos inquisitoriais.
CardosoDe “cardos” (tecelão de cardas)Profissão judaica comum; muitos no Rio de Janeiro.
CarvalhoDe “carvalho” (árvore)Símbolo bíblico; abundante no Nordeste.
CostaDe “costa” (litoral)Famílias costeiras fugindo da Inquisição.
CunhaDe “cunha” (cunha, ferramenta)Ligado a mercadores judeus.
DiasDe “dia” (dia do Senhor)Bíblico; um dos mais comuns em Anussim brasileiros.
DuarteForma portuguesa de Eduardo, mas com raízes hebraicasVariação de “David”.
FernandesFilho de FernandoExtremamente comum; muitos descendentes de marranos.
FerreiraDe “ferreiro” (ferreiro)Profissão; famílias no Sul.
GomesFilho de GomePortuguês antigo com herança judaica.
HenriquesFilho de HenriqueReal família portuguesa com conversos.
LopesFilho de Lopo (lobo)Comum em Portugal e Brasil colonial.
MaiaDe “maia” (maio, mês)Ligado a festas judaicas.
MendesFilho de MendoUm dos mais icônicos de Anussim.
OliveiraDe “oliveira” (oliveira)Símbolo de paz judaico; onipresente.
PereiraDe “pereira” (pereira)Árvore frutífera; muitos no Brasil.
PintoDe “pinto” (pintado) ou aveProfissão de tintureiro.
RamosDe “ramos” (ramos de oliveira)Bíblico, Hanucá.
RodriguesFilho de RodrigoVariante de Rui; abundante em processos.
SilvaDe “selva” (floresta)O mais comum no Brasil, com forte herança sefardita.
SousaDe “sousa” (sob a terra?) ou rioFamílias ribeirinhas.
TeixeiraDe “teixeira” (tecedura)Tecelões judeus.
VieiraDe “vieira” (concha de peregrino)Símbolo cristão adotado por conversos.

Essa lista não é exaustiva – há dezenas mais, como Abravanel, Baruch, Correa, Carvajal, Oliveira, Patrocício e Toledo, preservados em linhagens específicas. Se o seu sobrenome está aqui, pode ser um portal para o passado!

Comunidades Judaicas que Vieram: Itália, Alemanha e Seus Sobrenomes

Além dos sefarditas, o Brasil recebeu imigrantes judeus de outras regiões nos séculos XIX e XX, enriquecendo nossa tapeçaria cultural. As comunidades italianas, especialmente do sul (Sicília e Calábria), trouxeram judeus italianos com uma tradição milenar (dentre os quais, alguns de origem hispano-portuguesa, holandesa ou alemã). Muitos fugiram de pogroms e unificaram-se com os Bnei Anussim locais. Sobrenomes comuns incluem: Alpron, Foa, Minci, Passapaire, Segre, Zolli, Morpurgo, Russo, Valenzin, Stock, Abinum e Abramo.

Da Alemanha e Leste Europeu vieram os ashkenazim, especialmente após a Revolução de 1848 e o Holocausto. Eles se estabeleceram em São Paulo e Porto Alegre, fundando sinagogas e negócios. Sobrenomes típicos: Hoffman (mordomo), Kessler (fabricante de caldeiras), Alchimister (químico), Schapiro (de Speyer), Rosenberg (montanha de rosas), Goldman (homem de ouro), Cohen (sacerdote) e Levy (levita). Essas comunidades ajudaram a resgatar tradições, conectando Bnei Anussim com o judaísmo ortodoxo.

Redescubra Suas Raízes na Torá Chaim

Além das influências sefarditas, italianas e ashkenazitas, o Brasil também foi destino de comunidades judaicas provenientes do Marrocos, especialmente durante os séculos XVIII (1701-1800) e XIX (1801-1900). Essas comunidades, formadas majoritariamente por judeus sefarditas que haviam deixado a Península Ibérica após a expulsão de 1492 e se estabelecido no norte da África, chegaram ao Norte do Brasil, com destaque para os estados do Amazonas e do Pará. Atraídos pelas oportunidades econômicas do ciclo da borracha (1870-1920), esses imigrantes marroquinos, conhecidos como “judeus do Magrebe”, estabeleceram-se em cidades como Belém, Manaus e Santarém, trazendo consigo tradições, costumes e uma rica herança cultural. No Amazonas e no Pará, os judeus marroquinos fundaram sinagogas, como a histórica Sinagoga Shaar Hashamaim, em Belém, e criaram redes comerciais que conectavam o interior amazônico aos mercados internacionais. Seus sobrenomes, como Assayag, Abecassis, Benchimol, Benzaqen, Cohen, Gabbay, Ohana, Serfaty e Toledano, tornaram-se comuns na região e são hoje reconhecidos como parte da identidade cultural do Norte brasileiro. Esses nomes frequentemente refletem origens hebraicas, árabes ou ibéricas, evidenciando a trajetória complexa dessas famílias.
Um aspecto marcante dessa imigração foi a integração com os Bnei Anussim já presentes no Brasil. Muitos judeus marroquinos, que também carregavam memórias de perseguições e conversões forçadas no passado, encontraram afinidades com os descendentes de cristãos-novos que haviam preservado práticas judaicas em segredo. Essa fusão cultural e sanguínea foi particularmente forte no Amazonas e no Pará, onde casamentos mistos entre marroquinos e os Bnei Anussim fortaleceram laços comunitários. Costumes como a observância do Shabat, a preparação de alimentos tradicionais (como o pão ázimo ou pratos com influências magrebinas, como o cuscuz marroquino adaptado) e celebrações de festas judaicas, como Rosh Hashaná e Yom Kipur, ganharam características únicas, mesclando tradições ibéricas, morroquinas e amazônicas.
Apesar dos desafios de assimilação e da pressão para se integrar à sociedade católica dominante, essas comunidades mantiveram viva a chama do judaísmo. Hoje, descendentes dessas famílias marroquinas e Bnei Anussim no Norte do Brasil estão redescobrindo suas raízes, seja por meio de pesquisas genealógicas, testes de DNA ou retorno às práticas religiosas. Sobrenomes como Benchimol e Assayag, por exemplo, são frequentemente associados às histórias de resiliência, de resistência e de renascimento da identidade judaica na região.

Redescubra Suas Raízes na Torá Chaim

A história dos Bnei Anussim nos lembra que a fé judaica é indestrutível – ela sobreviveu à Inquisição e floresce em nossos dias. Se suspeita de ter raízes sefarditas, ashkenazitas ou italianas ou simplesmente quer explorar a Torá, venha fazer parte da nossa comunidade acolhedora! Estamos aqui para guiá-lo em estudos, orientação espiritual e reconexão com o legado ancestral. Todas as atividades são francas e sem custos adicionais para a participação.

Entre em contato conosco e inicie sua jornada: https://toratchaim.com.br/contato.html. Sua história pode ser a próxima a ser contada!

Shalom e bem-vindos à Torá Chaim!
Equipe Torá Chaim

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