Midrash da Parashá: Chayê Sara

Midrash: Chayê Sara

Sarah foi para o Olam Habá

Depois da Akedá (sacrifício de Yitschak), Avraham voltou para sua tenda em Beer Shêva, mas não encontrou lá sua esposa Sarah. “Onde está Sarah?” — perguntou aos seus servos. Estes o informaram: “Sarah viajou para Chevron (Hebron).” Avraham foi em busca dela. Quando chegou a Chevron, ficou sabendo da triste notícia: sua mulher havia falecido.

O Midrash Explica: Como Sarah foi para o Olam Habá?

O anjo da má inclinação, Satan, apareceu perante Sarah depois que Avraham havia partido rumo ao monte Moriyá junto com Yitschak, para oferecê-lo como sacrifício. Satan tinha o aspecto de um homem comum. Suas roupas estavam empoeiradas como as de um viajante que anda pelas estradas. Contou a Sarah: “Encontrei-me com seu marido, Avraham, e não imagina o que estava fazendo. Construiu um altar e pôs seu filho Yitschak sobre ele. Yitschak chorava implorando por piedade, mas Avraham se recusou a atender às comoventes súplicas de Yitschak. Amarrou as mãos e os pés do filho e o sacrificou.” Sarah começou a chorar. Pôs cinzas sobre a cabeça. “Meu filho Yitschak!” — exclamou ela. “Quem dera tivesse morrido em seu lugar. Mas sinto-me reconfortada e consolada porque sei que foi cumprida a palavra de Hashem. O Eterno é justo em tudo que faz. Mesmo que meus olhos derramem lágrimas, meu coração está feliz por Avraham ter obedecido à ordem de Hashem.” Sarah desmaiou de emoção, mas logo depois se sentiu melhor. Disse às servas: “Viajarei a Chevron para descobrir alguma coisa mais sobre o que ocorreu com Yitschak!” No caminho, Sarah perguntava a todos que encontrava: “Vocês viram Avraham e Yitschak?” Mas ninguém soube lhe dizer nada. Quando Sarah chegou a Chevron, Satan voltou a aparecer-lhe outra vez. Disse-lhe: “Antes, menti a você. A verdade é que, apesar de Avraham ter amarrado seu filho Yitschak sobre o altar, não o matou no final.” Sarah sentiu-se dominada por tanta felicidade com esta notícia maravilhosa que não pôde suportá-la. O coração parou de bater e sua alma saiu do corpo e foi direto para o Gan Éden.

Avraham Guarda Luto por Sarah

Sarah tinha 127 anos quando morreu. Viveu cada um de seus anos com integridade, aceitando todos os decretos de Hashem com alegria. Mesmo aos 100 anos de idade, era livre de pecados como alguém de 20 anos (que pode ser considerado livre de pecados porque com esta idade ainda não está sujeito à punição celeste). E aos 20 anos, era tão bela nas atitudes quanto aos 7 anos tinha inocência e pureza em seus atos. Avraham lamentou muito sua desencarnação. Com profundo pesar, exclamou: “Todos devem chorar a morte desta grande tsadeket, porque Hashem abençoou todas as pessoas por seu mérito. “Sarah serviu a Hashem durante toda sua vida. Constantemente preparava comida para hóspedes e também os ensinava a crer no Eterno. Durante toda sua vida, a nuvem da Shechiná pairava sempre sobre sua tenda. Hashem abençoava sua massa de modo que seu pão, mesmo que alguém o comesse em pequena quantidade, sentia-se satisfeito; as lamparinas que acendia na véspera do Shabat permaneciam acesas até a véspera do Shabat seguinte, pois seu óleo se multiplicava e seu pavio se renovava por milagre. Durante o período de três anos, entre a passagem de Sarah ao Olam Habá e a chegada de Rivka, tudo isso tinha cessado. Sarah foi a primeira das quatro matriarcas, fundadoras da nação israelita. Foi uma das sete profetisas conhecidas. As sete profetisas foram:

  • Sarah
  • Miriam (irmã de Moshê)
  • Devorah (a juíza)
  • Chanah (mãe do profeta Shemuel)
  • Avigail (esposa do rei David)
  • Chuldah (que profetizava para as mulheres à época em que Yirmiyáhu profetizava para os homens)
  • A Rainha Ester Sarah era tão grande que Hashem falava diretamente com ela; enquanto que com outras profetisas Ele falou apenas através dos anjos. Ela foi uma tsadeket de tal envergadura que até os anjos estavam sob seu comando. Quando ordenou ao anjo: “Golpeie”, este afligiu o Faraó e toda sua casa com pragas. Quando o rei Shlomoh (Salomão) compôs a canção Êshet Cháyil, tecendo louvores à Mulher Virtuosa, aludiu a Sarah. Todos os versos da canção, do primeiro ao último, referem-se a ela, uma vez que cumpriu toda a Torá, do começo ao fim.

Avraham Compra a Gruta de Machpelá

Avraham conhecia o local onde desejava sepultar Sarah. Havia uma gruta, perto de Chevron, onde Adam e Chava estavam enterrados. Era um lugar sagrado, chamado “Gruta de Machpelá”. Avraham se propôs a comprar a gruta de seu proprietário, que se chamava Efron. Primeiro, porém, queria pedir permissão à tribo de Efron, os Bnei Chet: “Por favor, deixe-me comprar um pedaço da propriedade para uma sepultura”, pediu a eles. Os membros da tribo dos Bnei Chet responderam: “És um homem de bom nome, um príncipe de Hashem. Daremos a ti qualquer propriedade onde desejas sepultar teus mortos.” Avraham curvou-se para agradecer ao Eterno. Pediu aos membros da tribo: “Por favor, peçam ao proprietário da Gruta de Machpelá, Efron, que a venda para mim.” Quando Efron ouviu que Avraham queria comprar sua gruta, foi pessoalmente falar com ele. “Meu senhor”, disse para Avraham. “Não quero dinheiro algum pelo campo onde está a gruta. Dou-a para você de graça.” “Não”, protestou Avraham, “prefiro comprá-la.” Avraham sabia que Efron não falava a sério quando prometia dar-lhe a gruta de presente. Efron era um homem avarento e, em seu coração, realmente queria dinheiro em troca da gruta. Portanto, Avraham insistiu: “Apenas diga-me o preço e o pagarei.” “Bem, se você insiste, direi o preço”, replicou Efron. “É uma quantia muito pequena — apenas 400 shecalim de prata.” Na verdade, não era em absoluto uma quantia pequena — era um preço muito, muito alto. O avarento Efron cobrava de Avraham um preço exorbitante, apesar de, a princípio, ter prometido dar a gruta de graça. Avraham, porém, não regateou com Efron. Queria pagar pelo lugar sagrado o preço integral para que ninguém mais tarde afirmasse que a Gruta de Machpelá, na realidade, não lhe pertencia por ter sido concedida de forma gratuita, o que não dava direito à posse nem à herança. Avraham pagou a Efron 400 shecalim. Depois, sepultou Sarah. Mais tarde, quando Avraham morreu, também foi enterrado na Gruta de Machpelá. Há três lugares chave pelos quais nossos antepassados pagaram aos gentios em dinheiro, para assegurarem de que seriam legítimos donos das propriedades e com isso não poderiam ser acusados, mais tarde, de ter se apropriado destes ilegalmente:

  • A Gruta de Machpelá, cuja transação é registrada pela Torá.
  • O local do Beit Hamicdash (Templo Sagrado, em Jerusalém) foi comprado pelo Rei David de Aravna, do povo de Yevussi.
  • O lugar de sepultamento de Yossef em Shechem (Nablus) foi adquirido por seu pai, Yaacov.

O Midrash Explica: Como a Gruta de Machpelá Recebeu este Nome

Você sabe o significado do nome “Gruta de Machpelá”? Quer dizer “A Gruta dos Duplos”. (A palavra “Machpelá” tem a mesma origem de “caful” que significa “duplo”). O que era “duplo” nesta gruta? Há muitas explicações. Abaixo encontramos algumas delas:

  1. Havia um “segundo pavimento” sobre a gruta, sendo assim realmente uma gruta dupla. (Porém somente o andar de baixo servia como local de sepultamento).
  2. Não só Sarah foi sepultada nesta gruta como também seu marido Avraham, mais tarde, quando faleceu. Yitschak e sua mulher Rivka também seriam sepultados lá, e assim o foram Yaacov e uma de suas esposas, Léa. Outro casal havia sido enterrado na Gruta de Machpelá, muito antes: o primeiro homem, Adam e sua esposa, Chava. Como os sepultados na Gruta eram casais ou “duplos”, a Torá a chama de Machpelá, significando “A Gruta dos Duplos”. Após a morte de Yitschak, a Gruta de Machpelá passou à posse de seus filhos, Yaacov e Essav. Havia sobrado lugar para só mais um casal. A questão era se Essav com uma de suas mulheres ou Yaacov com uma de suas mulheres seriam sepultados ali. Yaacov perguntou a Essav: “Que preferes, uma pilha de dinheiro de nosso pai Yitschak ou um lugar na Gruta Machpelá?” Essav pensou: “Por que hei de perder tanto dinheiro para ganhar um lugar de sepultamento? Por enquanto, ficarei com o dinheiro, mais tarde arranjarei um lugar de sepultura gratuitamente.” Essav aceitou o dinheiro de Yaacov e, com isso, perdeu o direito à Gruta de Machpelá para sempre. Mas como veremos depois (na Parashat Vaychi) Essav quis, apesar de tudo, ser sepultado na Gruta de Machpelá.
  3. Quando Hashem quis sepultar Adam, o corpo deste não entrava na gruta. Adam media cem amot de altura. O Eterno teve que dobrar o corpo de Adam para que coubesse na gruta. Esta era chamada de “Machpelá / Dupla” porque o corpo de Adam foi dobrado. Apesar de a gruta ser pequena, o Eterno queria que Adam fosse sepultado lá por ser um lugar sagrado. Atualmente conhecemos a localização exata da Gruta de Machpelá. Fica na cidade de Chevron (Hebron), em Israel. Os judeus rezam lá para Hashem e Ele ouve suas orações em mérito de nossos antepassados que ali jazem.

Como Surgiram os Sinais de Velhice? Apesar de Avraham ser idoso, tinha a aparência jovem. Até a época de Avraham, as pessoas não tinham sinais exteriores de envelhecimento. Aparentavam ser jovens até a morte. Yitschak era muito parecido com o pai e não se conseguia identificá-los com facilidade. Avraham disse ao Eterno: “Mestre do Universo! Se Yitschak e eu entrarmos juntos num local, as pessoas não saberão a quem prestar honras. Se o Senhor alterasse a aparência de um homem em idade avançada, as pessoas saberiam a quem honrar.” “Muito bem”, replicou Hashem. “Pediste algo bom. Serás o primeiro a ver seu pedido atendido!” Apareceram, então, sinais de envelhecimento em Avraham.

Avraham Pede a Eliêzer para Achar uma Esposa para Yitschak

Em sua velhice, Avraham tinha tudo o que podia desejar, com uma exceção: seu filho Yitschak não estava casado. Avraham chamou seu fiel servo Eliêzer e disse-lhe: “Meu filho Yitschak precisa de uma esposa. Confio a você a tarefa de encontrar-lhe uma. “Porém, não escolha uma das moças dos cananitas, porque todos eles foram por Nôach destituídos de firmeza espiritual por sua imoralidade sexual e não possuem a verdadeira fé no Todo Poderoso, vivem só da luxúria e da idolatria do mundo material.” “Em vez disso, vá até minha família em Charan e procure lá uma boa e digna esposa para Yitschak. Apesar dos membros da minha família adorarem ídolos, sei que são bondosos e sinceros. Por isso, uma moça de minha família terá, para começar, bons traços de caráter. Ela poderá aprender a servir ao Eterno e transmitir a verdadeira fé,my netos.” Eliêzer partiu para Charan. Avraham deu-lhe uma carta em que dizia que tudo que possuía pertencia a seu filho Yitschak. Se Eliêzer mostrasse a carta para os parentes da moça, eles, com certeza, permitiriam que casasse com Yitschak. Eliêzer chegou a Charan antes do fim do dia. Isto foi um milagre. Normalmente, a viagem para Charan levava 17 dias. Hashem fê-lo chegar lá rapidamente para ajudar Yitschak a casar-se sem demora.

Eliêzer Põe Rivka à Prova, ao Lado do Poço

Ao anoitecer, Eliêzer chegou ao poço que havia na entrada da cidade de Charan. Diariamente, os habitantes de Charan enviavam suas filhas ao poço para lhes trazerem água e, por isso, Eliêzer sabia que lá encontraria todas as moças de Charan. Eliêzer rezou ao Eterno: “Por favor, ajude-me a encontrar a moça adequada para Yitschak! “Yitschak necessita de uma esposa hospitaleira, que receba cordialmente os numerosos hóspedes que sempre vêm à nossa casa, que seja rápida em servi-los e tenha paciência com eles. Yitschak também precisa de uma esposa justa e compreensiva. “Hei de testar uma das moças que estão chegando para tirar água do poço. Pedir-lhe-ei para me dar água. Se me responder: ‘Beba e também darei água a seus camelos’, saberei que é bondosa e hospitaleira. Interpretarei isto como um sinal de que Tu, Hashem, a escolheste como esposa de Yitschak. (Mas se disser: ‘Por que devo extrair água para ti?’ ‘Podes tirar água do poço por si mesmo!’ ou ‘Pede a uma das outras moças,’ então ela não é a esposa generosa e amável que estou procurando).” Hashem aceitou a oração de Eliêzer. Fez com que Rivka viesse ao poço. Ela jamais saía para tirar água do poço. Era de nobre linhagem e seu pai, Betuel, governava a região. Geralmente Rivka enviava criadas para estas tarefas. Agora, porém, os anjos dirigiram Rivka ao poço, a fim de conduzi-la a seu destino como esposa de Yitschak. Eliêzer observou a maneira pela qual todas as moças tiravam água. E então reparou que uma delas não precisava abaixar seu balde para dentro do poço. Ocorria um milagre e a água subia até ela. Eliêzer pensou: “Esta moça deve ser uma tsadeket, se Hashem faz este milagre por ela!” Correu até ela e pediu-lhe: “Por favor, dê-me alguns goles d’água do seu jarro.”

Rivka Passa no Teste

Rivka respondeu para Eliêzer respeitosamente: “Beba, meu senhor.” Quando Eliêzer terminou de beber, ela acrescentou: “Agora também darei a seus camelos toda a água que necessitam.” Eliêzer viu que esta era uma moça excepcionalmente bondosa e hospitaleira. Ela se ofereceu para dar água a dez camelos — uma difícil tarefa! Correu para o poço e encheu seu jarro repetidas vezes para ajudar um homem que lhe era estranho. (A excepcional bondade de Rivka pode ser melhor apreciada se atentarmos à enorme quantidade de água que ofereceu-se para trazer: não apenas um jarro de água para cada camelo — o que ocasionaria que voltasse ao poço dez vezes para encher a ânfora — mas água o suficiente para que os camelos ficassem saciados. Sabe-se que camelos bebem enormes quantidades de água de uma vez, armazenando-a em seu estômago por vários dias. Rivka cumpriu a vasta empreitada com agilidade e rapidez, sem se incomodar com o fato de Eliêzer não levantar um dedo para ajudar uma menina pequena, e ainda manter-se de lado ociosamente, enquanto ela trabalhava sozinha.) Eliêzer ficou esperando porque queria descobrir mais uma coisa: será que no final a moça pediria dinheiro pelo seu grande trabalho? Porém, Rivka não tinha tais intenções. Quando terminou de dar de beber aos camelos, preparou-se para partir. Rapidamente, Eliêzer ofereceu-lhe presentes caros. Estava convencido de que Hashem havia enviado a moça certa. Eliêzer deu à futura noiva de Yitschak um aro de ouro com um diamante que pesava meio-shêkel, e dois braceletes dourados, cada um pesando dez shecalim. Estes presentes eram uma profecia sobre o futuro. Demonstravam que Rivka se tornaria a mãe do povo de Yisrael. O diamante de meio-shêkel indicava que cada israelita contribuiria ao Templo Sagrado com meio-shêkel por ano. Os dois braceletes, que os hebreus receberiam duas tábuas, e o peso de dez shecalim indicava que sobre essas tábuas os Dez Mandamentos seriam gravados. Eliêzer perguntou a Rivka: “Você é filha de quem? Há lugar para mim na casa de seu pai?” Rivka respondeu: “Sou filha de Betuel. (Betuel era sobrinho de Avraham). Temos lugar em casa para que durmas e também comida para teus camelos.” Eliêzer agradeceu ao Todo Poderoso: “B”H!, por ter me conduzido à moça certa da família de Avraham.”

Eliêzer na Casa de Betuel

Rivka correu para casa para contar à mãe sobre o homem desconhecido da família de Avraham que precisava de um lugar para dormir e que havia lhe dado esses presentes. Rivka tinha um irmão maldoso, Lavan (Labão). Quando viu a irmã usando um aro de ouro e pulseiras, pensou: “Se esse homem deu presentes tão valiosos para Rivka em troca de um pouco d’água, o que não me daria se o convidasse a entrar.” Lavan correu até Eliêzer e disse: “Bem-vindo à nossa casa! Temos lugar suficiente para ti. Também tirei os ídolos da casa!” Lavan sabia que nenhum membro da casa de Avraham entraria em um local onde houvesse imagens de ídolos. A família de Lavan serviu a Eliêzer uma refeição. Mas quando ele sentou-se à mesa, não começou a comer de imediato. Disse: “Primeiro, quero explicar porque estou aqui. “Meu senhor, Avraham, é muito rico. Tem um filho excelente, Yitschak. Qualquer moça de Kenaan se sentiria feliz em casar-se com ele. Mas meu senhor deseja que se case somente com uma moça de sua própria família. Por isso me enviou aqui.” Eliêzer contou-lhes como conheceu Rivka perto do poço e terminou perguntando: “Concordam em dar Rivka como esposa para Yitschak?” “Estamos de acordo, porque vemos que Hashem fez tudo isto acontecer”, respondeu Lavan, irmão de Rivka. O pai de Lavan, Betuel, também estava presente. Betuel deveria ter respondido antes. Porém Lavan não honrava seu pai e por isso respondeu antes dele. Betuel era um homem mau. Pôs diante de Eliêzer um prato de comida envenenada. Queria que Eliêzer morresse para ficar com o ouro e objetos preciosos que este trouxera. Mas enquanto Eliêzer falava, um anjo trocou as porções de Eliêzer e Betuel, e assim, este comeu a comida envenenada. Betuel morreu nesta mesma noite.

Eliêzer Leva Rivka para Yitschak

Na manhã seguinte, ambos, Lavan e sua mãe, disseram a Eliêzer: “Queremos que Rivka fique em nossa casa mais um ano antes de partir.” Mas Eliêzer respondeu: “Não, quero que ela venha comigo agora mesmo!” Perguntaram, então, para Rivka: “Queres ir com este homem?” “Sim, quero ir”, respondeu. Estava feliz em deixar o irmão malvado e a casa repleta de ídolos e casar-se com o tsadik Yitschak. Quando Rivka e Eliêzer chegaram às vizinhanças de Avraham em Kenaan, Yitschak estava justamente voltando da reza de Minchá. Ele sempre rezava num certo campo onde havia silêncio e podia concentrar-se. Nossos patriarcas instituíram as três preces diárias:

  • Avraham — a oração matutina, Shacharit;
  • Yitschak — a oração da tarde, Minchá;
  • Yaacov — a oração noturna, Arvit. Rivka ergueu os olhos e viu um homem que parecia um tsadik. Havia um anjo sobre ele que o protegia. Rivka desceu do camelo e cobriu seu rosto recatadamente com um véu. “Quem é este homem?” — perguntou a Eliêzer. “É meu senhor, Yitschak” — respondeu Eliêzer. Eliêzer relatou a Avraham e Yitschak como Hashem o ajudara a encontrar uma esposa para Yitschak. Yitschak levou Rivka para a tenda de Sarah. Percebeu, então, que ela era uma mulher justa, como fora sua mãe Sarah. Pois, novamente, a luz ardia da véspera de um Shabat até o seguinte, a massa era abençoada de modo que até um pedaço de pão pequeno saciava a fome e a nuvem da Shechiná pairava sobre a tenda, mesmos eventos que aconteciam durante a vida de Sarah. Yitschak estava feliz por ter encontrado uma esposa digna.

O Midrash Explica: Por que Sarah Mereceu Esses Milagres?

Sarah era meticulosa na observância das três mitsvot dadas especificamente às mulheres: acender as velas do Shabat, separar a chalá da massa, e cumprir as leis relacionadas à pureza familiar. Em troca, o Eterno a recompensou com três bênçãos:

  • Por ser cuidadosa em tirar a chalá, sua massa foi abençoada;
  • Como recompensa por cumprir a mitsvá de acendimento das velas, suas luzes ardiam da véspera de um Shabat até o próximo;
  • Por seguir as leis de Taharat Hamishpachá, Pureza Familiar, a nuvem da Shechiná pairava sobre sua tenda, pois o estado de pureza atrai a Presença Celestial. Todos os três sinais reapareceram para Rivka porque ela cumpria essas mitsvot com a mesma dedicação de Sarah.

Avraham Casa-se Novamente com Hagar

Enquanto Eliêzer estava em sua jornada, Yitschak também viajara. Fora buscar Hagar, para que se casasse novamente com seu pai. Yitschak pensou: “Meu pai está preocupado com meu casamento, enquanto ele próprio não tem uma esposa!” Assim como Avraham cumpriu a ordem de Hashem separando-se de Hagar e mandando-a embora, também assim o fez, casando-se novamente com ela, sob o comando do Eterno. A Torá relata que Avraham desposou uma mulher de nome Ketura, mas na verdade, casara-se novamente com Hagar. Se Ketura era a mesma pessoa que Hagar, por que a Torá atribui-lhe um nome diferente? Após ter deixado a casa de Avraham, Hagar voltou à idolatria da casa de seu pai. Mais tarde, porém, fez plena e sincera teshuvá, mudando completamente sua personalidade. O Eterno, então, deu-lhe outro nome, “Ketura”. Este novo nome foi escolhido por indicar seus atos positivos: Ela segregou-se, e absteve de relacionar-se com outros homens durante todos os anos em que esteve separada de Avraham (keter = isolou-se). O Eterno ordenou a Avraham que tomasse novamente Hagar como esposa porque sabia que ela merecia unir-se a Avraham.

O Primeiro Programa de 12 Passos na História e Por Que Não Funcionou

Doze Príncipes de Yishmael Ben Avraham

Não seria uma má ideia para os descendentes contemporâneos de Ismael — e para todos nós — refletir sobre os nomes individuais dos 12 filhos de Ismael, que se tornaram todos príncipes e patriarcas das nações ismaelitas. “São esses os nomes dos filhos de Ismael pela ordem de nascimento”, registra a Torá na porção desta semana, Chayê Sarah, e prossegue relacionando-os em três grupos e em três versículos separados: “O primogênito de Ismael foi Nebayot, depois Kedar, Adbiel, Mibsam.” Em seguida vem o segundo grupo de filhos: “Mishmá, Dumá e Massá”. Finalmente, a Torá relaciona os últimos cinco filhos: “Chadad, Tema, Yetur, Nafish e Kedmá”. A Torá então relata onde eles viveram no Oriente Médio. E conclui a narrativa — e toda a porção — declarando essas palavras ambíguas: “Eles caíram na presença de todos os seus irmãos.”

Qual é a Relevância?

O que este episódio está nos contando? É um mero detalhe incidental? A Torá não inclui detalhes meramente incidentais. Não temos ideia, por exemplo, de como Avraham, Sarah, Isaac ou Ismael se pareciam. Embora a Torá registre muitos fatos genealógicos e históricos, basicamente não é um livro de história ou genealogia, mas como seu próprio nome, Torá, indica, é um livro de instrução, um projeto para a vida humana. O registro dos membros da família de Ismael, então, não é meramente um registro de fatos genealógicos. Em vez disso, toda frase ou palavra registrada na Torá, é parte de um mapa para a jornada de nossas vidas. Mas qual a relevância dos 12 nomes antigos dos filhos de Ismael? E por que Ismael deu aos filhos esses nomes específicos? Mais uma pergunta: por que a Torá divide os doze nomes em três grupos desiguais: um grupo de quatro, um de três e um de cinco?

O Primeiro Programa de 12 Passos

As obras do misticismo judaico explicam que esses nomes representam o programa de 12 passos de Ismael, no sentido de levar uma vida saudável e bem equilibrada. Seu guia para o bem viver abrange os três componentes básicos da vida: saúde, relacionamentos e trabalho.

A – SAÚDE – O primeiro grupo dos filhos de Ismael, que compreende quatro nomes, representa seu guia de quatro passos para a boa saúde. 1 – Nebayot Nebayot em hebraico significa vazio. Isso indica a necessidade de manter o corpo vazio e limpo de lixo e substâncias prejudiciais ao organismo humano. O corpo não é uma lata de lixo. Deve permanecer “vazio”, livre e leve, translúcido e repleto de animação e energia. 2 – Kedar O significado da palavra hebraica kedar é calor. Isso representa a necessidade de exercitar-se regularmente, mantendo o corpo à temperatura aquecida e a boa circulação do sangue. 3 – Adbiel O significado deste nome é “não coma em excesso”. Mesmo que você esteja ingerindo alimentos nutritivos, deveria consumir apenas as quantidades que são necessárias para manter a saúde. 4 – Mibsam A tradução hebraica de Mibsam é tempero. Além de bons hábitos alimentares e exercícios regulares, a pessoa deve acrescentar algum “tempero” e “sabor” à sua vida corporal, enriquecendo sua existência e dando-lhe regalos. Isso é conseguido através de uma vida refinada — alimentos de primeira classe, bebidas finas, absorver as visões e o ar fresco da natureza, apreciando fragrâncias e perfumes etc.

B – RELACIONAMENTOS – O grupo seguinte dos filhos de Ismael, que abrange três filhos, representa o guia de três passos de Ismael rumo aos relacionamentos eficazes, tanto no lar como no local de trabalho. 5 – Mishmá Mishmá significa ouvir, considerar. Você deve cultivar o talento de ouvir realmente a outro ser humano. 6 – Dumá Dumá significa silêncio. O segundo passo no sentido de criar um bom relacionamento consiste da capacidade de permanecer em silêncio. Você não deve sentir sempre que precisa reagir às críticas de sua mulher; ou não precisa dar sempre uma resposta a uma pergunta feita. Permaneça em silêncio. Você não vai morrer se não atirar uma resposta para fora de si; seu silêncio pode até conceder uma percepção inesperada. Pessoas bem-sucedidas escutam muito mais do que falam. 7 – Massá Massá, que literalmente significa “fardo”, simboliza o terceiro passo que é eficaz no sentido de desenvolver relacionamentos equilibrados e a longo prazo, ou seja, paciência e tolerância, a capacidade de tolerar e conter os fardos de outro ser humano, embora eles possam ser falhos e imperfeitos.

C – TRABALHO – Uma vez que nosso corpo e nossos relacionamentos estejam em ordem, podemos abordar o último grupo dos cinco filhos de Ismael, levando seu programa de cinco passos rumo ao trabalho e produtividade. Neste caso, os cinco nomes precisam ser lidos e entendidos numa única sequência. Chadad em aramaico significa novidade. Tema significa maravilha. Yetur é uma linha reta. Nafish significa serenidade, finalmente, Kedmá significa primeiro e à frente. Este é o programa de cinco passos de Ismael para o trabalho e realização. 8 – Chadad Primeiro, você deve ser levado a embarcar numa trilha nova, a estrada menos viajada. Deve superar o medo de falhar e estar pronto a assumir riscos e abrir novos caminhos. Não tema ser original e criativo. 9 – Tema Porém, todo criador e empreendedor encontrará resistência. As pessoas ao seu redor darão de ombros espantadas (Tema), criticando você por uma fantasia não realista, pela arrogância juvenil, pela estupidez imatura. Elas irão predizer o seu fracasso. O que você faz? 10 – Yetur A essa altura, você precisa ter certeza de que seu plano é bem organizado e estruturado, tão perfeito quanto uma linha reta. 11 – Nafish Você também precisa se afastar, relaxar e repensar seus planos e metas num estado de espírito sereno e tranquilo. Não permita que um estado de espírito inspirador mas vacilante defina suas metas a longo prazo; certifique-se de que interiorizou serenamente o propósito de sua missão. 12 – Kedmá Mas se e quando você concluir que este é o caminho certo, precisa saltar de cabeça para o projeto e não permitir que os obstáculos ao longo do caminho atrapalhem a execução de seus sonhos. “Siga em frente!” — seja o primeiro e esteja à frente do jogo, porque se você procrastinar a essa altura, alguém vai vencê-lo. Assim temos o programa de 12 passos de Ismael para o bem viver: vazio, exercício, nutrição e regalos; ouvir, ficar em silêncio e tolerar; pensar de maneira diferente, ser confiante, organizado, resoluto e quando a hora chegar, não olhe para trás.

O Vazio Quando refletimos sobre estes doze passos, percebemos que um elemento crucial — talvez o mais importante — está faltando da impressionante lista de Ismael. É o componente do significado. Uma vida humana precisa de significado. Quando estamos carentes de um propósito interior, é extremamente difícil manter estes 12 passos que exigem disciplina e concentração. A certa altura você se pergunta: qual é o propósito disso tudo? Essa questão não pode ser respondida com a contratação de um personal trainer, estudando sobre relacionamentos eficazes e abrindo caminho na empresa. Assim, a Torá conclui sua narrativa dos 12 filhos declarando: “Eles caíram na presença de seus irmãos.” Até mesmo a vida equilibrada com saúde, relacionamentos e trabalho, se for carente de significado interior, termina por fracassar, porque carece do oxigênio da profundidade que mantém a pessoa inspirada e motivada a viver bem, e assegurar que os passos estão canalizados para os propósitos corretos, não para objetivos fúteis ou prejudiciais. Os 12 passos de Ismael captam uma camada importante mas superficial da existência. Fala-nos como viver dentro dos ritmos da natureza e biologia. Não se dirige ao nosso senso de que existe algo no âmago da natureza que a transcende. Para isso temos os nomes de outras doze tribos, os doze filhos de Yaacov, cujos nomes representam o projeto para viver não somente uma vida refinada e equilibrada, mas também viver com o Divino, com o misterioso âmago da realidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima