Midrash da Parashá: Nôach

Um Justo em Sua Geração

Durante as dez gerações que se seguiram a Adam e Chava, a Terra foi povoada. Infelizmente, as pessoas começaram a idolatrar os astros, julgando que fossem representantes do Eterno e, portanto, parte Dele mesmo, reis soberanos do universo. Rezavam para o Sol e para a Lua, para imagens de madeira ou pedra, e cada vez mais surgia uma infinidade de outros objetos a serem adorados e glorificados. Foi então que Hashem se irou.

O verdadeiro Criador do universo poderia ter castigado imediatamente os pecadores, mas não o fez. Aguardou, pois tinha esperança de que as pessoas fizessem Teshuvá (arrependimento) de praticar a idolatria e servissem somente ao Único Todo-Poderoso, reconhecendo Sua grandeza.

Porém, as pessoas não melhoravam; ao contrário, cada geração pensava em maneiras de obter novos ídolos e novas formas de servi-los. As pessoas que viveram na décima geração após Adam desceram a um nível ainda mais baixo; além de servir aos ídolos, seu comportamento imoral as rebaixou de tal modo que agiam como animais, e não como seres humanos criados à semelhança do Criador. Praticavam atos imorais, matavam e roubavam uns aos outros, sem se importar com a vida ou a propriedade alheia. Esses atos eram realizados abertamente em público, pois não fazia diferença alguma, já que, ao serem julgados em um tribunal, o próprio juiz e as testemunhas – por serem igualmente inescrupulosos – nem se davam ao trabalho de punir os culpados.

Uma pessoa mais forte fazia questão de oprimir o mais fraco. Se alguém quisesse desposar uma moça, surgia um homem mais forte declarando que ela lhe pertencia e casaria com ela antes.

Só havia duas pessoas que praticavam a justiça aos olhos do Eterno: Nôach e sua mulher, Naama. Eles souberam ensinar seus três filhos a serem igualmente justos. Quando Nôach viu que todos os vizinhos eram perversos, raciocinou: “Se permanecer próximo a eles, também me tornarei perverso pelo convívio.”

Por esse motivo, Nôach decidiu morar num local conhecido apenas por ele e sua família. Passava o tempo estudando os livros sagrados. Possuía o livro que os anjos tinham escrito para Adam e outro livro sagrado que recebera de seu bisavô, Chanoch (Enoque). Por meio desses livros, Nôach aprendeu como rezar e servir ao Eterno. Enquanto Nôach se elevava e crescia em santidade, o mundo lá fora tornava-se cada vez mais depravado, chegando a um nível que não merecia mais existir. Foi então que Hashem revelou a Nôach:

“Até agora, fui paciente. Esperei que esta gente perversa melhorasse sua conduta, mas é inútil. Estão sempre pensando em cometer atos piores. Mesmo à noite, enquanto estão deitados em suas camas, fazem novos planos para praticar maldades no dia seguinte. Portanto, vou destruí-los, junto com os animais, pássaros, árvores, a relva e até mesmo o solo. Mas você, Nôach, e sua família, serão poupados.”

Por Que o Dilúvio como Castigo?

Hashem disse a Nôach: “Inundarei a terra com um terrível dilúvio. Tudo que se encontra abaixo do firmamento será apagado.”

Hashem poderia ter destruído o mundo enviando, ao invés do dilúvio, uma peste, animais selvagens, um incêndio ou qualquer outra força destrutiva. Por que, entre tantas formas de destruição, Ele escolheu justamente as águas?

Uma das respostas é explicada por meio da seguinte parábola:

O Rei e as Pessoas Mudas

O rei estava de bom humor. Anunciou a seu ministro:

“Desejo alegrar algumas pessoas desafortunadas. Convide ao meu palácio um grupo de pessoas pobres e mudas. Trate-as generosamente! Dê-lhes comida requintada e vista-as lindamente.”

O grupo de pessoas mudas foi convidado e todos passaram um tempo muito agradável. Jamais sonharam haver no mundo coisas tão prazerosas. Sua gratidão para com o rei não tinha limites. As infelizes criaturas não podiam falar, mas, quando o rei passava, todos se levantavam, se curvavam, acenavam com as mãos e mostravam a ele, na linguagem dos sinais, o quanto apreciavam o que estava fazendo por elas. Todas as manhãs, ao se levantarem, louvavam o rei na linguagem dos sinais.

O rei estava satisfeito por eles o honrarem desse modo. Estava tão contente que chamou o ministro e deu-lhe algumas instruções:

“Este grupo de pessoas mudas desfrutou de uma longa e agradável estadia em meu palácio. Despeça-os agora e convide, em seu lugar, um grupo de mendigos que falem. Eles louvarão meus atos nobres com palavras, e não apenas com gestos, e sentir-me-ei ainda mais honrado.”

Então, um grupo de pessoas pobres e falantes foi convidado ao palácio e tratado com deleites que nunca haviam experimentado. Os mendigos estavam tão ocupados em divertir-se que esqueceram o rei a quem deviam sua boa sorte. Nenhum deles pronunciou uma palavra sequer de agradecimento e, quando o rei passava por eles, ignoravam-no completamente. Logo, os mendigos esperavam suas comodidades com naturalidade e exigiam prazeres como se lhes coubesse por direito. Certo dia, decidiram se apoderar do palácio e depor o rei. Enfurecido, este chamou o ministro:

“Expulse estes mendigos de meu palácio,” ordenou ele. “Faria melhor convidando novamente os mudos; eles não podiam expressar sua gratidão com palavras, mas me honravam da melhor maneira possível. Estas pessoas falantes, porém, que poderiam me trazer tanta glória com o poder da fala, revoltam-se contra mim!”

A ordem do rei foi cumprida.

A Chave para a Parábola

Quando Hashem criou o mundo, encheu-o com água. A água não podia louvá-Lo com palavras, mas fazia rolar suas ondas ruidosamente em alto e bom som, proclamando: “Como Hashem é poderoso!”

Hashem então disse:

“Se até a água canta Meus louvores, imagine o que farão os seres humanos que podem pensar e falar!”

Então, o Criador removeu a água para os oceanos. Na terra seca, criou seres humanos dotados de inteligência. Porém, ao invés de louvar a Hashem, revoltaram-se contra Ele, cometendo pecados. Em vez de usar o cérebro e o poder da fala para objetivos positivos, tramavam atos maus, difamavam, insultavam e injustiçavam uns aos outros. Todas as gerações depois de Adam foram igualmente perversas. Hashem observou seus atos tornarem-se cada vez piores e disse:

“Vou livrar-Me desta gente e trazer de volta a água que estava na terra no início da Criação. A água não pode pensar nem falar, mas louva-Me, enquanto as pessoas Me enfurecem com seus atos vis!”

Por essa razão, Hashem trouxe o dilúvio à Terra, eliminando os perversos.

Nôach Constrói a Arca

Hashem havia falado a Nôach sobre um poderoso dilúvio universal, mas também assegurou que ele e sua família estariam a salvo. Onde encontrariam um local seguro, que não pudesse ser invadido e destruído pelas águas? Nôach ouviu a resposta por meio desta ordem do Eterno:

“Construa para você uma arca (têva) de madeira. Ela flutuará sobre as águas.”

Nessa arca especial, Nôach e sua família sobreviveriam à terrível inundação e estariam protegidos. Ela foi construída por Nôach seguindo todas as instruções recebidas do Eterno:

“Construa a arca com 300 amot (cerca de 150m) de comprimento, 50 amot (cerca de 25m) de largura e 30 amot (15m) de altura. Deve ter três andares e conter 300 compartimentos diferentes (segundo a opinião de alguns dos nossos Sábios, 900 compartimentos). Ponha uma janela para entrar claridade e construa o telhado inclinado para que a água escorra. Depois que estiver pronta, passe piche por dentro e por fora para evitar que a água entre por suas fendas.”

Podemos imaginar a dificuldade na época para construir um barco nessas proporções. Nôach era completamente desprovido de instrumentos como serra elétrica ou brocas para desempenhar essa missão; ele construiu a arca manualmente. Levou 120 anos para terminar sua obra.

Era precisamente o que Hashem queria: dar a oportunidade para que os habitantes da terra se arrependessem de seus atos e fizessem teshuvá, retornando ao bom caminho. Ele esperava que, durante esses 120 anos, a notícia de que Nôach estava construindo uma arca se espalhasse pelo mundo inteiro, despertando o temor e o arrependimento, apressando as pessoas a corrigir suas falhas.

De fato, a notícia de que um grande barco estava sendo construído por um homem chegou aos ouvidos das pessoas.

“Por que você está construindo este barco?” – perguntavam a Nôach.

“Estou construindo,” explicava Nôach, “para me salvar do enorme dilúvio que o Eterno enviará sobre a terra. Ele exterminará todos vocês por causa de seus pecados.”

As pessoas levaram a sério as palavras de Nôach? Nem um pouco. Suas vozes ribombavam com risos enquanto zombavam de suas palavras.

“Quem se importa?” – gritavam eles. “Somos tão fortes que não tememos um dilúvio. Podemos subir nas árvores e nos telhados. Mesmo se as águas lá chegarem, seremos mais altos do que a inundação, porque somos gigantes.”

De fato, as pessoas que viviam naquela época eram enormes. Nossos Sábios explicam:

Por Que as Pessoas no Tempo de Nôach Não Temiam uma Inundação?

Dois Sábios, Rabi Chiya e Rabi Yehudá, estavam passando por altas montanhas, entre as quais encontraram ossos gigantescos de 300 passos (aproximadamente 150m).

“Estes ossos são restos mortais da geração do mabul (dilúvio),” disseram eles. “Vamos medi-los.”

Cada osso era tão comprido que tinham que dar 300 passos para ir de um extremo ao outro!

“Agora compreendemos por que os contemporâneos de Nôach não tinham medo do dilúvio!” – exclamaram. “Eram verdadeiros gigantes! Acreditavam que nenhuma inundação pudesse ser tão grande a ponto de afogá-los e achavam que evitariam que os poços profundos vertessem água apenas pisando sobre eles. Não é de admirar que tivessem certeza de sobreviver à maior das inundações.”

Hashem Ordena a Nôach para Trazer os Animais e Sua Família para a Arca

O som das marteladas espalhava-se no ar, o que não era motivo de alegria para Nôach, que sentia o fim da civilização aproximar-se a cada tábua colocada. Os avisos de Nôach eram sempre recebidos com risadas e palavras duras. Apesar disso, ele obedecia às ordens do Criador e continuou construindo até que o último prego estivesse no lugar.

Ao ficar pronta a arca, apesar de Hashem estar satisfeito por Nôach ter cumprido Sua ordem, estava infeliz por ter de destruir Sua criação. Disse então:

“Estou muito triste por ser forçado a destruir o mundo maravilhoso que criei em sete dias.” E ordenou a Nôach: “Traga para a arca um macho e uma fêmea de cada animal não-casher e sete pares de cada espécie casher. Traga também suprimento de comida para um ano, para você e os animais.”

Sete dias depois (em respeito ao falecimento do grande tsadik, Metushalach), a 17 de Cheshvan de 1656, começou a chover. O Eterno ordenou a Nôach e sua família: “Entrem na arca.”

Nôach, sua mulher Naama e seus filhos Shem, Cham e Yefet, com suas esposas, entraram na arca.

A chuva era cada vez mais forte. Os oceanos, rios, lagos e riachos transbordaram até que a terra ficou inundada. Fontes quentes brotaram das profundezas da terra, partindo a crosta e jorrando água fervendo.

A água começou a subir cada vez mais alto. As pessoas compreenderam que as advertências de Nôach eram verdadeiras; subiram nos telhados e nas copas das árvores, mas as águas aumentavam cada vez mais. Muitos dos gigantes correram para escalar as montanhas. Mas as águas subiam mais e mais até cobrir o topo das montanhas mais altas.

Algumas pessoas gritaram: “Vamos fugir para a arca para nos salvar!”

Mas, milagrosamente, Hashem fez com que seus pés ficassem presos na água. Embora tentassem se mover para a frente, não conseguiam sair do mesmo lugar.

Alguns dos homens perversos gritavam: “Vamos virar a arca! Por que Nôach tem que se salvar?”

Mas, quando se aproximaram da arca, tiveram uma visão assustadora: leões e ursos surgiram rugindo ao redor da arca, prontos para devorar quem se aproximasse. Hashem milagrosamente protegeu Nôach e sua família.

A chuva destruiu todos os seres vivos, homens e animais fora da arca. (Os peixes foram uma exceção, pois permaneceram vivos.)

Nôach e Sua Família Cuidam dos Animais na Arca

Não devemos pensar nem por um minuto que Nôach e sua família viviam confortavelmente na arca enquanto o resto do mundo sofria lá fora. Eles tinham que alimentar milhares de animais que levavam na arca.

Tão logo Nôach adormecia, exausto após um dia de trabalho duro cuidando dos animais, era acordado por um grito estridente ou o rugido de um animal faminto. Num instante, Nôach arrastava-se cansado para fora da cama e começava a trabalhar, pois sabia que os animais dependiam dele para obter comida.

Seus filhos – Shem, Cham e Yefet – também passavam a noite acordados, com os olhos vermelhos e cansados por falta de sono, pois sentiam a grande responsabilidade de cuidar constantemente dos animais. Noite após noite, Nôach e sua família se privavam do sono reparador para atender aos chamados dos animais. Durante o dia, também não era possível ter algumas horas de sossego, pois os zurros, latidos, rugidos e gorjeios não tinham fim.

Nôach e sua família também sofriam com o cheiro dos animais, que era forte e desagradável, irritando suas gargantas.

Além disso, ouviam o terrível estrondo das ondas furiosas do lado de fora da janela. Estavam assustados e tinham o coração paralisado de medo. Rezavam incessantemente, suplicando ao Eterno que os protegesse.

Por trabalharem tão intensamente com os animais e rezarem o tempo todo, Nôach e seus filhos se tornaram tsadikim (justos) ainda maiores. Agora, realmente mereciam ser salvos.

Hashem não permitiu que nenhum animal selvagem da arca fizesse mal a Nôach ou à sua família. Todos os animais selvagens da arca se portavam como se fossem mansos. Muitas vezes, Nôach pisava em cobras ou escorpiões, mas nunca foi picado. Apenas uma vez, Nôach estava atrasado com a comida do leão, e este lhe deu uma forte patada na perna, deixando-o sangrando e mancando.

Nôach Envia o Corvo e a Pomba

Após 40 dias, a chuva parou. A terra, porém, ainda estava inundada, e a água cobria os picos das altas montanhas.

Passaram-se mais 150 dias para a água começar a baixar. A arca deixou de flutuar e parou sobre as montanhas de Ararat. A água continuou a baixar até que os topos das montanhas puderam novamente ser vistos.

Quarenta dias depois, Nôach abriu uma janela da arca. Enviou um corvo para examinar se a água havia baixado completamente. Talvez houvesse novamente grama ou folhas para alimentar os animais. Mas o corvo não se distanciava da arca, pois a terra ainda estava inundada. Voava em círculos ao redor da arca, e Nôach compreendeu que o chão ainda estava cheio d’água.

Esperou mais uma semana e mandou uma pomba. Se ela encontrasse um ponto seco para pousar, Nôach saberia que a água finalmente havia desaparecido da superfície da terra. Mas o chão estava molhado demais para a pomba pousar, e a ave regressou à arca. Nôach estendeu a mão fora da janela para apanhá-la.

Sete dias depois, mandou a pomba pela segunda vez. Nôach esperava que a terra estivesse seca. As horas se passaram, e não havia sinal da pomba. Estaria o chão tão seco que ela havia encontrado um local para construir um ninho? Perto do anoitecer, Nôach foi saudado por uma visão encorajadora: a pomba estava voltando para a arca com uma folha fresca de oliveira em seu bico.

Nôach esperou mais uma semana e enviou a pomba pela terceira vez. Desta vez, a terra estava suficientemente seca para a pomba nela se fixar permanentemente, e a ave não voltou mais para a arca. Nôach sabia agora que a terra era novamente habitável.

Mais de um ano depois que Nôach entrou na arca, a 27 de Cheshvan de 1657, Hashem ordenou a Nôach e sua família: “Saiam da arca!”

Nôach e Sua Família Voltam para a Terra

Quando Nôach e sua família saíram da arca, Nôach construiu um mizbêach (altar). Ele pensou: “Por que o Eterno me ordenou que trouxesse sete pares de animais casher para dentro da arca e não apenas um par? Com certeza, queria que eu oferecesse os restantes em sacrifício para agradecer-Lhe por ter salvo a mim e a minha família do dilúvio e dos animais selvagens da arca.”

Os sacrifícios de Nôach agradaram ao Eterno.

Quando Nôach e sua família voltaram para a terra firme, não havia árvore, grama ou pessoa alguma. Nôach e sua família eram os únicos seres humanos sobre uma terra que parecia um enorme deserto. Estavam assustados e tristes. Seriam capazes de construir um mundo novo?

Hashem apareceu para Nôach e sua família e os abençoou, prometendo:

“Não temam! Hei de multiplicar vocês, e novamente haverá muitas famílias sobre a Terra. Não tenham receio de que os animais selvagens irão atacá-los porque são muito poucos. Irei protegê-los.”

O Eterno permitiu a Nôach e a todos os seus descendentes comerem a carne de animais. Até aquela época, só era permitido às pessoas comerem vegetais.

O Sinal do Arco Celeste

Nôach pediu ao Eterno que nunca mais mandasse outro dilúvio. O Criador prometeu-lhe:

“Nunca mais mandarei outra inundação que destrua o mundo inteiro.

“Como sinal de minha promessa, vou lhes mostrar o seguinte: de tempos em tempos, Meu arco celeste aparecerá nas nuvens. Este será um sinal de que me lembro da promessa de não trazer outra inundação.”

Por isso, sempre que vemos um arco celeste nas nuvens em dia de chuva, pronunciamos a bênção: “Baruch… zocher habrit veneeman bevrito vekayam bemaamarô”

“Fonte das Bênçãos és Tu, Hashem, nosso Senhor, Rei do Universo, Que lembras da promessa (de não destruir o mundo através de um dilúvio) e Que és fiel ao Teu acordo e manténs a Sua palavra.”

Nôach Fica Bêbado

Depois que Nôach saiu da arca, sentiu ser sua responsabilidade cultivar a terra deixada estéril pelo dilúvio.

Em primeiro lugar, Nôach plantou uma videira. Quando as uvas ficaram maduras, espremeu-as e experimentou o vinho. Mas Nôach cometeu um erro: bebeu demais.

Nôach ficou bêbado e deitou no chão de sua tenda. Kenaan entrou e viu o estado de Nôach. Correu para fora e contou, rindo, para seu pai, Cham:

“Você sabia que o vovô está deitado no chão, bêbado? E está nu?”

O filho de Nôach, Cham, também riu e foi informar seus dois irmãos. Assim que Shem ouviu isso, disse:

“Vamos cobrir nosso pai.”

Trouxe uma coberta e pediu que seu irmão Yefet ajudasse-o a levar Nôach para a tenda. Os dois viraram os rostos para não verem a nudez de seu pai.

Quando Nôach acordou da bebedeira, amaldiçoou o neto Kenaan e abençoou Shem e Yefet, que souberam honrar seu pai.

Todos podemos errar algumas vezes, mesmo um pai. Porém, um filho deve honrar os pais e se portar sempre com respeito perante eles.

Os Bnei Nôach

Os três filhos de Nôach – Shem, Cham e Yefet – tiveram filhos e muitos netos. Shem foi ancestral de Avraham (Abraão), antepassado do povo de Yisrael.

A Torre de Babel

Somente trezentos anos se passaram após o dilúvio quando as pessoas perversas decidiram novamente se revoltar contra Hashem.

O líder daquela geração era o rei Nimrod, monarca poderoso e forte. Em sua arrogância, afirmava ser Mashiach, porque queria dominar o mundo inteiro. Por isso, persuadiu as pessoas a não obedecer o Criador. Nimrod sugeriu:

“Vamos construir uma cidade na qual viveremos todos juntos. No meio da cidade, ergueremos uma torre bem alta. Se o Eterno mandar outro dilúvio, subiremos nela para ficarmos a salvo.”

A ideia foi recebida com muito entusiasmo. Algumas pessoas levaram a ideia ainda mais além, incitando:

“Vamos pôr a estátua de Nimrod no topo da torre. Colocaremos uma espada em sua mão como sinal de que ele está lutando contra o Tribunal Celestial.”

As pessoas uniram-se e começaram a construir uma torre que levaria um ano para chegar ao topo.

Hashem falou aos setenta anjos que ficam à Sua frente para servi-Lo:

“Desceremos e desfaremos todos os seus planos! Vou dividir este povo fazendo com que falem línguas diferentes.”

Até então, todos os habitantes da Terra falavam o proto-hebraico.

Hashem desceu com Seus setenta anjos. Cada anjo fez com que um grupo de pessoas falasse uma língua diferente.

A confusão que se formou foi incrível! Um homem disse a outro: “Dê-me um tijolo.”

Ao invés disso, o outro entendeu que devia pegar um martelo e bater-lhe na cabeça. Um mal-entendido levava a outro devido às novas palavras e seus significados em outras línguas. Logo reinou uma enorme confusão.

Os anjos espalharam as pessoas pelo mundo inteiro. Esta geração é chamada de Dor Hahaflagá, Geração da Dispersão, porque foram dispersos por Hashem.

Por que não foi destruída esta geração perversa como foi exterminada a geração do dilúvio? As pessoas que construíram a Torre de Babel agiram em paz e com amizade entre si; não havia discórdia entre eles como na geração do dilúvio. Isso era tão importante para o Eterno que, apesar de terem se revoltado contra Ele, não os destruiu.

Uma História: Alexandre, o Grande, e o Povo Altruísta

O poderoso imperador Alexandre, o Grande, viajou por muitos países. Certa vez, visitou um reino longínquo atrás das escuras montanhas da África.

O rei daquele país deu as boas-vindas a Alexandre e ofereceu-lhe um lindo presente: pães de ouro sobre bandejas de ouro.

“Não vim aqui para ver teus tesouros,” disse-lhe Alexandre.

“Então por que vieste?” – indagou-lhe o rei.

“Queria ver como julgas as pessoas no teu país,” respondeu Alexandre. “Ouvi dizer que teu julgamento é justo e bom.”

Enquanto conversavam, chegaram duas pessoas para serem julgadas pelo rei.

O primeiro homem estava tão transtornado que mal podia conter sua aflição.

“Comprei um campo deste homem,” falou nervoso, “e nele encontrei um tesouro. Quero devolver-lhe o tesouro. Comprei somente o campo e não o tesouro. Não quero ficar com o que não me pertence!”

O outro homem, porém, se ateve à sua posição com firmeza.

“Vendi o campo com tudo o que contém,” insistiu ele. “O tesouro é teu, e não vou ficar com ele.”

Os dois homens continuaram a discutir. Cada um insistia que o tesouro pertencia ao outro. Alexandre estava espantado:

“Como julgas este caso?” – perguntou, incrédulo, para o rei.

O rei virou-se para o primeiro homem e perguntou:

“Tens um filho?”

“Sim,” respondeu o homem.

“Tens uma filha?” – perguntou ao segundo homem.

“Tenho,” respondeu o segundo homem.

“Decido o seguinte,” disse-lhes o rei. “Casem o filho dele com a filha do outro e deem o tesouro para o jovem casal.”

Alexandre ficou surpreso com esta decisão.

“Por que estás tão surpreso?” – perguntou-lhe o rei. “Não julguei bem? Como terias decidido em teu país?”

Alexandre respondeu:

“Provavelmente teriam prendido os dois homens, e o tesouro seria confiscado pelo governo.”

“As pessoas em teu país são tão ávidas por dinheiro?” – perguntou o rei, chocado. “O sol brilha em teu país, e a chuva cai?”

“Certamente,” respondeu Alexandre.

“Bem,” concluiu o rei, “o Eterno não lhes dá sol e chuva pelo mérito das pessoas. Pessoas que brigam entre si e cobiçam as posses dos outros não merecem nem o sol, nem a chuva. Hashem tem misericórdia dos animais, e é só por mérito deles que cuida de seu país.”

Avram Protesta Contra a Idolatria

Dez gerações depois de Nôach, nasceu Avram (Abraão).

Novamente, todas as pessoas no mundo adoravam ídolos. Serviam ao sol, à lua e a muitas espécies de ídolos.

O pai de Avram, Têrach, era um homem muito ocupado: sumo sacerdote de toda a Babilônia, reinado de Nimrod. Por isso, pediu ao tio de Avram, o sacerdote Nachor, que cuidasse do menino.

A casa de Nachor, assim como a de todos, estava cheia de imagens; algumas de prata, ouro e cobre, e outras de madeira. Nachor ensinou a Avram para ser um bom sacerdote babilônico:

“Curve-se perante estas imagens, Avram, pois elas são a fonte das bênçãos e de todo o poder da Babilônia. Se não servi-las corretamente, castigarão a todos nós!”

“Como são poderosas?” – perguntou o menino. “Não podem falar nem se mover!”

“Cada uma delas governa outra parte do mundo, Avram,” lhe explicou Nachor. “Nimrod, nosso rei, é o mais poderoso em trazer-nos as bênçãos, mais do que todas as outras entidades do reino espiritual, pois no nosso mundo nos tem protegido e expandido nosso Império, estabelecendo as leis reais para todos viverem em paz e harmonia com prosperidade em nossos dias.”

“Como uma pessoa pode ser considerada a fonte de todas estas bênçãos sem ser o Criador do Universo, tio?” – perguntou Avram.

“Fica quieto, menino, não deves falar assim,” respondeu Nachor. “Se Nimrod te ouvir, vingar-se-á. Ouve o que te digo.”

O pequeno sacerdote Avram não estava satisfeito. Ninguém respondia satisfatoriamente a suas perguntas. Quem havia criado o mundo? Quem o havia feito e a todas as pessoas que o rodeavam?

Talvez o sol fosse a origem de todos, pensou, pois era tão poderoso, iluminava o mundo e fazia crescer as plantas. Porém, Avram observou que o sol apenas nascia e se punha todos os dias, seguindo um padrão pré-estabelecido. Não tinha a capacidade de criar outros seres. Seria a lua, então, a criadora do Universo? Não, tanto o sol como a lua agiam como servos que obedecem a ordens de terceiros.

Mas a quem obedeciam? Avram tinha apenas três anos quando descobriu, por si mesmo, a resposta. Compreendeu que o sol, a lua, o vento, a chuva e toda a natureza seguem as ordens de Hashem. Ele é o Criador Todo-Poderoso. Pode não ser visível, mas Avram entendeu que o mundo é dirigido por Ele.

Avram disse, então, a seu tio Nachor e ao pai Têrach que não se curvaria perante ídolos, somente perante o Eterno. Insistiu que eles também deveriam deixar de prostrar-se às imagens. Mas não lhe deram atenção.

Quando Avram cresceu, seu pai Têrach deu-lhe um saco cheio de ídolos e disse: “Vá e venda-os no mercado.”

Avram levou consigo um martelo. Quando um cliente se aproximava e lhe pedia um ídolo, Avram batia na cabeça do ídolo com o martelo.

“Você quer ficar com este?” – perguntava para o cliente.

Em seguida, dava um golpe na cabeça do próximo: “Ou prefere este?” – perguntava.

Quando as pessoas viam como os ídolos permaneciam imóveis mesmo quando golpeados na cabeça, desistiam da compra.

Outra vez, Avram levou um saco cheio de ídolos para o mercado. Chegando lá, despejou todo seu conteúdo. Em seguida, destruiu os ídolos na frente de todos.

Certa vez, Têrach viajou. Avram pediu à sua mãe: “Por favor, sacrifique uma ovelha e prepare uma comida saborosa. Quero oferecê-la às imagens do meu pai para que se sintam agradecidas.”

A mãe preparou uma comida deliciosa, e Avram colocou-a na frente das imagens.

“Comam,” lhes disse. Mas nenhuma das estátuas provou a comida.

Avram riu: “Talvez não gostem deste prato,” disse às imagens, “ou pensem que não lhes trouxe comida suficiente. Amanhã lhes servirei algo melhor.”

No dia seguinte, disse à mãe: “Os ídolos não gostaram da comida de ontem. Por favor, prepare uma refeição mais farta e melhor hoje!”

Sua mãe assim o fez. Avram pôs uma comida farta e deliciosa perante os ídolos.

“Comam,” disse-lhes.

Sentou-se próximo às estátuas para observar se comiam e assim ficou o dia todo. Nenhum dos ídolos se mexeu.

Nessa noite, Avram estava furioso. “Ai do meu pai e de toda esta geração,” exclamou. “Servem ídolos que não podem caminhar, nem se mexer, nem escutar, nem enxergar, nem cheirar.”

Avram pegou o machado de seu pai e destruiu todos os ídolos, com exceção do maior.

Nesse momento, Têrach regressava de sua viagem, escutou os golpes do machado e o barulho de madeira e metal sendo destruídos.

“O que será isto?” – exclamou. “Parece vir da sala do templo.”

Correu para dentro. Avram acabava de terminar sua obra de destruição. Deixara apenas o ídolo maior e havia colocado o machado em seus braços.

“Por que destruíste minhas imagens?” – gritou Têrach.

“Não fui eu,” respondeu Avram. “Brigaram pela comida que lhes dei, e o maior deles pegou o machado e quebrou os demais.”

“Mentiroso!” – replicou Têrach. “Não podem quebrar uns aos outros! Nem sequer podem mover-se!”

“Pai,” disse Avram, “então por que os serve? Por que deposita sua confiança nestes ídolos? Podem te salvar do perigo? Podem ouvir suas preces?”

“Estás cometendo um grave erro em adorar estas imagens. Tu e todos os outros esqueceram de Hashem, o verdadeiro e único Criador do Céu e da Terra. Nossos antepassados também se esqueceram Dele, e por isso o Eterno mandou o dilúvio. Por que então você deixa-O novamente aborrecido?”

Rapidamente, Avram pegou o machado, despedaçou o último e maior ídolo e saiu correndo da casa. Têrach estava furioso. Ele era um súdito leal do rei, e a conduta de Avram não podia ser ignorada. Têrach foi ao palácio do Rei Nimrod e disse ao rei:

“Deves julgar meu filho por se revoltar contra o sacerdócio babilônico.”

Avram é Posto na Prisão

Nimrod mandou seus soldados prenderem Avram e trazê-lo ao palácio.

Nimrod perguntou a Avram, com severidade:

“Por que você quebrou os ídolos do seu pai?”

“Não fui eu,” respondeu Avram. “O maior quebrou os demais.”

“Vamos,” repreendeu Nimrod. “Você realmente pensa que vou acreditar em tais histórias? Sei que as imagens não podem se quebrar umas às outras; elas não se mexem.”

Avram censurou Nimrod na frente de todos seus servos:

“Então por que os adora? Por que não serve ao Eterno que governa o mundo, que te criou, que vai fazer-te morrer e que pode ressuscitá-lo? Ai de ti, rei perverso e bobo! Deverias mostrar o caminho correto para todos. Em vez disso, tu e teus servos fazem com que as pessoas pequem.”

“Não sabes que, por causa de pecados como os teus, Hashem mandou o dilúvio para nossos antepassados? Se continuares servindo aos ídolos, tu e todos que te seguirem também morrerão em vergonha e desgraça. Hashem irá castigá-los.”

“Chega!” – gritou Nimrod. “Para a prisão com ele!”

Avram foi lançado na prisão e mantido lá por dez anos.

Avram é Jogado numa Fornalha

Depois de dez anos difíceis, Avram foi novamente trazido à presença de Nimrod, que ainda esperava convencê-lo a se curvar aos ídolos.

“Agora vais te prostrar às imagens?” – perguntou o rei para Avram.

“Só me curvo perante o Criador do Mundo,” respondeu Avram.

“Eu sou o criador!” – afirmou Nimrod com orgulho.

“Podes ordenar ao sol para nascer a oeste e se pôr a leste?” – perguntou-lhe Avram. “Então acreditarei que você é o Criador.”

Nimrod se virou para os sábios e para os príncipes à sua volta.

“Que castigo merece este homem?” – perguntou. “Julguem-no.”

Todos responderam:

“O homem que despreza o rei e sua religião deve ser queimado.”

Para tal, foi preparada uma enorme fornalha na cidade de Kasdim. Com grande júbilo, os oficiais do rei a esquentaram durante três dias e três noites.

A notícia espalhou-se rapidamente. Chegou gente de todas as partes do mundo a Kasdim para presenciar o grande acontecimento. Frente a uma grande multidão de espectadores, Avram foi agarrado e jogado nas chamas.

O Eterno falou para os anjos: “Avram foi fiel a Mim. Eu Mesmo vou salvá-lo.”

O Criador então ordenou que as chamas não causassem mal algum a Avram, mas que apenas devorassem as cordas que o amarravam.

Para a multidão que observava o acontecimento, tudo parecia correr conforme o planejado. As chamas da fornalha subiam ao céu. Era um fim apropriado para um traidor, murmurava o povo; logo, nada sobraria dele.

A multidão se dispersou, mas os servos de Nimrod ficaram perto da fornalha até que as chamas terminassem seu trabalho. De repente, soltaram uma exclamação de surpresa. Os olhos se arregalaram de terror. Os queixos caíram de espanto. Pois Avram estava milagrosamente vivo dentro da fornalha, caminhando lá dentro! As chamas haviam queimado apenas as cordas que o amarravam, mas não chamuscaram suas roupas ou o corpo.

Agitados, os servos correram para informar o milagre ao Rei Nimrod. No começo, Nimrod não acreditou no que estava ouvindo, mas, quando os servos confirmaram a notícia, Nimrod foi pessoalmente olhar dentro da fornalha.

Era verdade! Avram estava andando dentro dela como se passeasse num jardim!

“Saia, Avram,” chamou Nimrod, com voz trêmula. “Prometo que não farei nenhum mal a você.”

Avram saiu da fornalha são e salvo.

Tremendo, Nimrod e seus servos se inclinaram para Avram. Estavam convencidos de que ele deveria ser um anjo de Hashem!

“Foi o Eterno, o Criador do mundo, Quem me salvou!” – explicou-lhes Avram. “Curvem-se perante Ele!”

Haran, o irmão mais moço de Avram, estava indeciso se deveria ouvir Avram e crer em Hashem ou seguir o Rei Nimrod e se curvar perante os ídolos. Mas, quando Haran viu Avram sair vivo do fogo, anunciou confiante:

“Eu também creio em Hashem!”

Os oficiais do Rei Nimrod agarraram Haran e o jogaram nas chamas. Mas ele morreu como mártir em sua geração, já que não houve o grande milagre de ser salvo como o tsadik Avram.

Têrach, Avram e Suas Famílias Mudam-se para Charan

Apesar de Avram ter sido salvo diante dos olhos de Nimrod, Têrach percebeu que o perigo ainda não havia passado. O perverso Nimrod poderia decidir matar Avram outra vez. E quem poderia saber se o Eterno realizaria outro milagre?

“Vamos deixar esta terra,” aconselhou Têrach a Avram. “Iremos para a terra de Knaan, onde Nimrod não governa.”

Por que Têrach, de repente, achava que seu filho Avram deveria se pôr a salvo do Rei Nimrod? Não havia sido o próprio Têrach que pediu ao rei que castigasse Avram por não ter acreditado nos ídolos?

Mas, após presenciar o grande milagre que aconteceu a Avram, Têrach mudou de ideia. Começou a acreditar que Hashem era o Mestre do Mundo. Muitos anos depois, antes de morrer, Têrach abandonou definitivamente a adoração aos ídolos e fez completa teshuvá.

Avram concordou com a sugestão do pai de se mudar para a terra de Knaan.

Têrach, Avram e suas famílias partiram para Knaan. No caminho, passaram por um lugar chamado Charan. Têrach viu que lá estariam a salvo, pois aquele lugar estava fora dos domínios de Nimrod. Por isso, Têrach decidiu:

“Vamos ficar aqui!”

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